sábado, julho 15, 2006

Geração "mamãe eu quero"

Essa semana representantes da Igreja Presbiteriana do Brasil vindos de todas as partes do país estarão reunidos em concílio para decidir os rumos da denominação para os próximos anos.

Apesar dessa discussão não ser a proposta do “Coisas de criança” creio que seja válido refletir sobre o que tem levado milhares de evangélicos, até mesmo no contexto das igrejas históricas reformadas (como é o caso), a buscar na religião a satisfação de suas necessidades ou desejos.

Na verdade o que se tem visto hoje no âmbito denominado evangélico é um crescimento numérico assustador, que inclusive chama a atenção de integrantes de outras religiões, como por exemplo dos católicos, que a cada dia perdem mais fiéis para as igrejas neopentecostais. O problema é que esse boom evangelicalista, pouco tem repercutido no comportamento da sociedade quando se toma por base a função da igreja, ou seja, de cada cristão genuíno ser sal da terra e luz do mundo como prescreve Jesus aos seus.

A matéria da revista Veja publicada no dia 12 de julho desse ano é o retrato dessa realidade, pois teve como objetivo levar o leitor a compreender porque a pesquisa realizada em 2004 pelo Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris) mostra que de cada 10 ex-católicos sete se tornaram evangélicos. Além disso, a reportagem aponta ainda que de 2000 a 2003 a população de evangélicos brasileiros passou de 15% para 18% segundo dados do censo levantados pela Fundação Getúlio Vargas. Esse panorama, que deveria ser encarado como uma grande vitória, nos remete a uma outra realidade, a de que, como a matéria dá a entender, os templos se transformaram em grandes divãs de terapia em grupo nos quais os fiéis se sentam, divertem-se com os shows musicais, entram em catarze e depois voltam para casa como se tivessem acabado de sair do consultório psiquiátrico.

Fico a pensar se essa dinâmica não é fruto de uma geração “mamãe eu quero” a qual evidencia deficiências na educação que vem desde o berço, em que a criança tem todos os seus desejos realizados pelos pais, nunca passa por frustrações e quando chega à idade adulta não está preparada para enfrentar os altos e baixos da vida, necessitando de uma muleta para seguir em frente.

É claro que qualquer ser humano sem Jesus está perdido, pois não tem a quem recorrer no momento da aflição, mas talvez essa seja a brecha para que muitos mega templos se encham de adoradores que mais se parecem com crianças mimadas em busca de satisfação pessoal. Isso não significa que o encontro com Jesus não traga satisfação, muito pelo contrário, mas o caminho é inverso ao que se vê hoje em dia. A proposta bíblica é que se busque em primeiro lugar o reino de Deus e as demais coisas serão acrescentadas!

Pensando nas nossas crianças e na responsabilidade que é educar, fico a questionar se nós como pais não temos alimentado, através daquilo que transmitimos aos filhos, essa eterna insatisfação interior que parece inerente ao perfil desses adoradores atuais. No momento em que os privamos de sofrer por um brinquedo que não podem ter, ou porque não nos importamos quando os irmãos brigam pelo fato de não quererem dividir seus pertences estamos impedindo nossos filhos de lidar com os reveses da vida... Muitas vezes nos esquecemos da mensagem que está embutida por trás de nossas concessões e permissividade.

Não quero aqui levantar a bandeira do não absoluto aos filhos, pois como pais cristãos temos a obrigação de demonstrar amor e enchê-los de carinho e afeto, mas precisamos deixar claro a eles que no mundo passamos por aflições a partir do momento em que nascemos, como afirmou o próprio Jesus, e precisamos nos preparar para enfrentá-las.

Se em nossos lares estivermos preocupados em oferecer aos nossos filhos aquilo que de fato lhes é necessário (e isso inclui também os “nãos”) com certeza as futuras gerações estarão em busca do que realmente pode satisfazer o coração e a alma, terão condições de aquietar o seu coração e experimentar a paz de espírito como bem expressa Davi no Salmo 131:
“SENHOR, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar; não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim. Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo. Espera, ó Israel, no SENHOR, desde agora e para sempre.”