quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Nossos filhos, instrumentos de Deus

Já há algumas semanas venho desempenhando uma nova modalidade em minha trajetória como mãe, esposa, dona de casa, e porque não agora “mãetorista”, como diz uma amiga. Ainda estou dando meus primeiros passos, ou melhor, correndo meus primeiros kilômetros nessa nova função que adquiri e que está se tornando uma verdadeira ferramenta de trabalho e tem em muito facilitado o cumprimento de minhas tarefas do dia a dia. Mas apesar do pouco tempo de trânsito, principalmente guiando numa cidade como São Paulo, já posso perceber o quanto pequenas coisas que acontecem nesse contexto, como um carro que nos fecha pela direita, ou alguém que não respeita a sinalização, podem em questão de segundos nos fazer pecar. Ainda mais para alguém impaciente como eu em que a irritabilidade é quase que inevitável.

Quando voltava com minhas princesas pra casa após uma reunião de crianças em nossa igreja fui surpreendida com um carro que atravessou em minha frente ignorando completamente o fato de que a preferência de passagem era minha, uma situação que me deixou um pouco nervosa, dada minha inexperiência em dirigir. Imediatamente proferi uma palavra não muito educada referindo-me ao motorista inconseqüente, nada muito grave, mas simplesmente algo que já havia ensinado às minhas filhas que não se deveria dizer. E então me deparei com a seguinte frase: “Mamãe, a gente não pode falar assim, isso não agrada a Deus”. Dois sentimentos invadiram meu coração após atentar para o que havia acabado de escutar, o primeiro deles foi imediato, e que me fez corar de vergonha ao ser repreendida por minha filha de 4 anos que naquele momento era uma porta-voz de Deus em minha vida. Senti-me como se estivesse ouvindo o apóstolo Paulo dizer aos efésios: “Não saia de vossa boca nenhuma palavra torpe...” (Ef 4.9), ou o próprio Jesus ao dizer que aquele que chama seu irmão de tolo, em seu íntimo matou seu irmão. O fato é que naquele instante fui tomada por uma completa sensação de derrota, pois sucumbi à tentação de conter a ira. Resignada, minha atitude então foi dizer: “Você tem razão filha, isso realmente não agrada a Deus. Me desculpe”.

Mas antes de me deixar abater pela consciência de que havia cometido uma falha, outro sentimento tão importante quanto o arrependimento me chamou a atenção. Deus usou aquele fato corriqueiro para me fazer notar que apesar das minhas limitações, de minhas deficiências, ele tem me usado para ser sua agente na vida de minhas filhas. Embora ainda tão pequenas elas já têm capacidade para compreender, dentro de sua maturidade intelectual, que bater no irmão é pecado, que usar qualquer palavra que venha a menosprezar alguém é errado, que falar mentira desagrada a Deus, conceitos simples mas fundamentais para que a criança a medida em que se desenvolve física, emocional e intelectualmente vá também exercitando seu crescimento espiritual, ou seja, vá aprendendo sobre si mesma, sobre suas inclinações e sobre quem vem a ser esse Deus que a fez. Isso nos faz pensar sobre como os valores de Deus são elevados, seus preceitos são retos, santos, e acima de tudo invariáveis. E embora pareçam inatingíveis, quanto mais cedo forem apresentados aos nossos filhos mais cedo serão assimilados e obedecidos.

Aquela sensação frustrante que senti num primeiro momento diante desse acontecido deu lugar então a um segundo sentimento, algo que fez meu coração pular de alegria. Vitória foi a palavra que me veio a mente ao me dar conta de que minha filha, em sua primeira infância já dava mostras, ainda que infimamente, de conhecer sobre esse Deus que requer de nós não menos que a perfeição. Estas ocasiões tão especiais é que nos fazem perceber que o cansaço físico, o desgaste emocional, as horas de choro ouvidas diariamente, as petições intermináveis, de repente se dissipam na mente e abrem espaço para notarmos que vale a pena todo o esforço empreendido na busca pela religação dos nossos filhos com seu Criador.
"Eu, de boa vontade, me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol da vossa alma…" (2 Coríntios 12.15)

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Rompendo o cordão umbilical

O cordão umbilical é uma espécie de órgão que vai se formando conforme o crescimento do bebê no interior do útero. Ele promove uma ligação inseparável com a mãe, como se ela e seu filho fossem um único ser. Por meio do cordão umbilical o bebê é alimentado e nutrido até o momento em que estará pronto para sair do ventre materno e então ser definitivamente separado de sua progenitora com o rompimento radical desse elo de ligação.

Embora esse rompimento aconteça imediatamente após o nascimento do bebê, por vezes, nós mães, temos dificuldades em assimilar esse fato. Achamos que nossos filhos continuam presos a nós como se fossem um órgão a mais e nossas atitudes serão em muitas ocasiões guiadas por esse sentimento.

Sem a menor sombra de dúvida, nossos bebês necessitam de todo carinho, de todos os abraços, beijos e afagos que possamos oferecer. Essas são ferramentas aliadas nossas, as quais nos permitem desenvolver a auto-estima de nossos filhos, mostrar-lhes que também podem ser afáveis e gentis, porém não podemos nunca usá-las para justificar, ainda que inconscientemente, nossa insegurança em aceitar que o cordão já foi rompido.

Nossos filhos não são parte de nós, são pessoas, indivíduos que possuem genoma único, capazes de raciocinar por si próprios, de reagir de modo ímpar às mais diversas situações e devem ser estimulados a desenvolver seu caráter através daquilo que apreendem do meio em que vivem. Se a todo instante tentarmos transpor as barreiras que são colocadas a frente de nossos filhos, como aprenderão a rompê-las?

A partir do momento em que nasce todo ser humano passa por alguma dificuldade, seja o sofrimento pelo parto, seja a mudança de ambiente, seja a sensação de frio, todas essas novas circunstâncias são de extrema importância para inserir o bebê no contexto em que irá viver. Esse pensamento é válido para todas as etapas da vida de nosso filho. Enquanto o socorremos apressadamente quando acordam no berço, enquanto evitamos que sintam completamente o vento em seu rosto ou deixamos de negar-lhes algo para não chorarem ou se entristecerem mostramos que nós ainda não rompemos o nosso cordão umbilical. Querendo agradá-los fazemos aquilo que eles poderiam e até deveriam fazer, e agimos assim para que não sofram ou se frustrem. Mas onde está escrito que evitar as frustrações na infância é benéfico para o futuro? Não podemos nos esquecer que as dificuldades são inevitáveis e se pouparmos nossos filhos de sofrer agora enquanto podem ser consolados e disciplinados em amor, como reagirão ao receberem um “não” na vida adulta? Pedirão demissão? Desfarão o casamento? Desprezarão um amigo?

Vejo duas formas erradas de procedimento que revelam o não rompimento do cordão umbilical materno: uma delas é essa que me referi acima, em que a mãe resolve todos os problemas de seu filho, seja evitando que ele suba numa cadeira (afinal ele pode cair), evitando que brinque na terra para não se sujar, levantando-o do chão rapidamente após uma queda, etc, isto é, impedindo a criança de ganhar confiança em si mesma, de vencer seus medos e desenvolver sua capacidade criativa para resolver problemas.

Outra forma seria evitar a disciplina, como se a criança não tivesse capacidade de compreender limites e então vai formando seu caráter desconhecendo o padrão de certo e errado. O desejo de evitar o sofrimento de nossos filhos os torna apáticos diante da vida, inertes, desconectados do mundo ao seu redor.

No Salmo 127 vemos que os filhos são comparados a flechas na mão do guerreiro. Pensando a respeito dessa comparação podemos perceber que as flechas, assim como os filhos, não permanecerão para sempre no interior da aljava, senão perderiam completamente sua utilidade. Mas serão usadas em momento oportuno, e não serão colocadas no alvo com as próprias mãos do guerreiro, serão lançadas para que sigam seu caminho. A habilidade do guerreiro está em lançar as flechas mas serão elas que atingirão o alvo.

Romper o cordão umbilical é um exercício que toda mãe deve fazer, repensar o modo como enxerga seu filho, respeitando suas peculiaridades, ajudando a controlar seu temperamento, permitindo que encontre barreiras e as supere. Nossos filhos não serão bebês para sempre, serão homens e mulheres atuando na sociedade. Como tomarão suas próprias decisões se sempre houver quem as tome por eles? Podemos e devemos auxiliar nossos filhos a superar cada etapa de suas vidas mas não podemos permitir que eles sejam passivos nesse processo.