quarta-feira, outubro 03, 2007

Uma mudança radical

Como já disse algumas vezes, sou mãe de três filhas que ainda estão na primeira infância. Fazendo um quadro dessa condição na mente, acho que dá para imaginar a loucura que isso representa. É a mais novinha que chora querendo a mamadeira, a do meio que não admite perder seu lugar no colo e a mais velha querendo virar mocinha ao mesmo tempo em que disputa uma vaga nos braços da mamãe. Sem falar a respeito das diferenças de personalidade refletidas no comportamento. Uma viagem encantadora, pensando por esse lado, mas não menos cansativa e trabalhosa. Sarah, por exemplo, que completou cinco anos em setembro desse ano, já desenvolveu conversas conosco falando sobre seu desejo de “conhecer o mundo”, “outros países...” mostrando que já conhecia o Brasil e gostaria de conhecer a Inglaterra. Dá pra imaginar? É uma emoção indescritível. Fico orgulhosa quando percebo que ela já consegue escrever seu nome sozinha além de várias outras palavras que soletramos. Ah como me falta tempo...

Isabel não fica muito atrás, aos três anos ela já vem apresentando um desenvolvimento de se admirar. Também já consegue escrever seu próprio nome e sabe identificar letras, números formas geométricas, o que se contrapõe ao seu jeitinho dengoso que às vezes me faz pensar que ainda é um bebê.

E interagindo com essa mini escola está a Lídia que perto de completar dois anos é uma esponja de aprendizado tanto para aquilo que é bom quanto para o que me deixa com mais fiozinhos brancos.

Fico cansada só de falar sobre o assunto, uma grande responsabilidade recai sobre meus ombros e a carga de trabalho pode superar qualquer emprego que viesse a exercer. Por conta disso, vivi muito tempo conformada com meu jeito estressado de ser. Escondia minha culpa pelos acessos de raiva, palavras duras e irritações atrás da imagem de que eu era assim por que tinha três filhos pequenos sob meus cuidados. Meus dias eram como um grande peso sobre os ombros, e mantinha uma relação estritamente burocrática com minhas lindas princesas. Dava comida, o banho, trocava a roupa, mandava para a TV ou para o quarto brincar e por um longo tempo deixei de me divertir com elas. Não pensem que isso nunca me incomodou, pelo contrário, sempre busquei a Deus pedindo que tivesse misericórdia de mim e me ajudasse a ser uma mãe mais agradável e feliz. Muitos textos bíblicos vinham à minha mente como “... o amor não se exaspera”, “irai-vos mas não pequeis...” tendo consciência de que minha postura precisava ser revista, mas faltavam forças para mudar.

Até que Deus usou alguém inimaginável para me desafiar. Sempre tratei a saúde de minhas filhas através da homeopatia. Gosto muito dos resultados, mas já dá para imaginar o quanto é difícil encontrar um homeopata que consiga dissociar a medicina do esoterismo. Ainda mais quando se muda de plano de saúde e é preciso sair à caça de um novo profissional sério e que seja atencioso com as crianças (condição sine qua non quando se trata do médico que vai cuidar das minhas jóias). Pois bem, já estava quase me conformando com a descoberta de uma nova clínica quando resolvi fazer uma última tentativa. Marquei a consulta e saí em uma maratona que incluiu iogurte, bolachinhas, muita sujeira no carro e choradeira também. Fomos atendidas por uma médica oriental extremamente simpática e bastante interessada. Após baixar três relatórios sobre características físicas, emocionais e gostos pessoais, passei a responder perguntas do tipo: como é seu relacionamento com elas? Quem é mais apegada ao pai ou à mãe? Como é o dia-a dia de vocês? O fato é que me senti num divã, ou como se estivesse me olhando no espelho. Confessei a ela sobre minhas dificuldades de me relacionar com elas de uma forma mais saudável dado ao meu cansaço físico e emocional e disse que isso se devia às solicitações constantes e distintas de cada uma feitas à minha pessoa. Até que ela me disse: “elas estão te solicitando demais por que você não as está solicitando”, e mais uma: “uma mãe estressada é a pior coisa para a saúde dos filhos”.

Chocados? Pois eu fiquei. Já havia ouvido milhares de pessoas me alertando quanto aos aspectos nocivos do nervosismo e da impaciência, já havia inclusive escrito textos a respeito disso, mas como uma espada cortante aquelas palavras me soaram como a voz de Deus. Aquela médica me desafiou de tal forma que saí do consultório descarregada de um fardo que há muito levava sozinha. Foi como se naquele momento tivesse entregado toda a minha exaustão nas mãos daquele que leva minhas cargas desde a eternidade. Daquele dia em diante parei de me conformar com o fato de ser uma mãe estressada por ter três filhos pequenos. Desde então Deus vem trabalhando em meu coração me dando prazer em fazer coisas que via apenas como obrigação, como por exemplo, brincar, ir ao play ground ou ao parque.

Deus usou aquela médica para falar comigo, para tocar meu coração, para me fazer enxergar que eu tenho nada mais nada menos do que três valiosos tesouros, que não só foram confiados a mim, mas acima de tudo me tem como exemplo. Posso garantir que meus dias têm sido mais felizes e garanto que para meu esposo e minhas filhinhas queridas também.

quarta-feira, maio 30, 2007

Por que a gratidão alegra o coração...

Minha filha Isabel fez três anos em março passado. Eu e meu marido saímos juntos para então comprar um presente que pudesse marcar a data e tentamos escolher algo que se identificasse com ela. Ultimamente vínhamos percebendo seu interesse em brincar de auscultar o coração do papai, ver se a mamãe estava com febre, e então achamos que um kit com acessórios médicos seria o presente ideal. Mas quando estávamos realizando a compra nos lembramos de que na ocasião do aniversário de Sarah (4 anos), nossa filha mais velha, havíamos presenteado a Isabel também. Por conta disso, achamos que seria menos traumático se comprássemos um presente para as três filhas.

Para Sarah, tão sonhadora e apaixonada por contos de fada, escolhemos então uma varinha de condão (com uma luz vermelha que acendia e piscava), que vinha também com brincos e uma coroa. Para Lídia escolhemos um elefantinho de pelúcia. Pronto, estávamos preparados para chegar a nossa casa e vê-las se deliciarem com os novos presentes. E foi assim que aconteceu: cada uma passou a explorar todas as possibilidades que seus brinquedos novos poderiam oferecer e por um longo tempo ficaram felizes e entretidas.

Ao final da tarde, porém, Sarah começou a notar que a luz de sua varinha de condão já não estava piscando como antes, o que a levou a romper em prantos por sentir-se tão frustrada com aquela situação. Tentei descobrir o mais rápido que pude qual seria o problema do brinquedo, e a conclusão que cheguei foi de que a pilha deveria estar fraca. Expliquei a ela, tentando o ser o mais clara e objetiva possível, que como a varinha já havia sido usada por bastante tempo, a pilha já estaria chegando ao seu limite. Também lhe disse que não havia em casa uma pilha substituta e nem teríamos condições de comprá-la naquele mesmo dia. Mas todas as minhas explicações e tentativas de amenizar seu desapontamento foram inúteis. Seu rostinho já não estampava mais a alegria que sentira ao receber aquele presente especial. Agora seus sentimentos haviam se invertido completamente e ela os externava mostrando grande irritação, choro e manifestações de ira. Naquele momento já não podia mais continuar tentando amenizar a situação sem antes levá-la a reconhecer o erro em sua atitude. Pedi a ela que fosse até seu quarto para então conversarmos, e ela já sabia que algo iria acontecer, pois esse é o procedimento que adotamos quando a circunstância exige disciplina e correção. Contei até 10 e fui conversar com ela.

Com três filhas pequenas sempre tivemos necessidade de investir em recursos que pudessem distraí-las para que os afazeres domésticos não ficassem tão abandonados. Por isso temos procurado, na medida do possível, adquirir material infantil, inclusive DVDs, que além de entretenimento venham também a complementar de forma lúdica o que já vimos ensinando a elas no dia a dia. Foi então que me lembrei de uma animação da série “Vegetais” chamada Madame Blueberry, que narra a história de uma ‘uva’ que vivia muito tristonha por achar que seus vizinhos possuíam coisas melhores e mais bonitas do que as dela. Seu desejo era de sempre comprar, gastar, na tentativa de satisfazer os anseios de seu coração. Mas ao caminho do shopping ela se depara com uma família pobre comemorando o aniversário da filha, e apesar de só haver um pedaço de torta para se comer estavam todos agradecidos a Deus por terem um ao outro e por serem felizes apesar das dificuldades. Aos poucos, enquanto ia enchendo seu carrinho de compras, a uvinha triste ia percebendo que nada daquilo estava lhe trazendo a verdadeira satisfação e então ela pergunta ao vendedor se no shopping seria possível comprar um coração alegre. Ela descobre então que sua alegria só seria possível se ela agradecesse a Deus as bênçãos que já possuía.

Não pensei duas vezes. Recordei junto a Sarah essa história, ainda que singela mas ao mesmo tempo repleta de verdades bíblicas. Disse-lhe que se seu coração estivesse grato ela não iria chorar por causa da luz da varinha de condão. Lembrei-lhe também que naquele dia não era seu aniversário, mas que mesmo assim papai e mamãe haviam decidido presenteá-la. Já estava preparada então para corrigi-la com a “vara”, mas aos poucos, seu choro irritado foi dando lugar a um murmúrio arrependido, e antes mesmo de eu completar meu raciocínio ela já havia me pedido desculpas e estava mais feliz com seu brinquedo. Nos abraçamos e agradecemos a Deus por ser tão gracioso em nossas vidas.

Que lição maravilhosa trouxe a mim aquele momento. Busquei sabedoria e Deus colocou em meus lábios suas palavras e providenciou ferramentas a serem usadas para instrução e admoestação não só da minha filha, mas minha também, afinal sempre devemos nos recordar sobre a necessidade de um coração grato.
“...Porque a gratidão alegra o coração. Sou feliz com o que tenho sempre vou agradecer. Pelo amor que nos dás, porque sempre nos vigia, por isso agradeço todo dia...” (música tema da animação “Madame Blueberry” – Os Vegetais)

quarta-feira, março 28, 2007

Ritos de Passagem

No início do ano passado, eu e meu marido decidimos que era hora de Sarah (na época com 3 anos e 4 meses) e Isabel (1 ano e 10 meses) irem para a escola. Embora ainda de certa forma receosos por nossa resolução, tínhamos a sensação de que aquele seria um bom momento para a abertura dessa nova fase da vida delas, afinal estávamos ainda com um bebê de apenas dois meses em casa, e eu particularmente, sentia a necessidade de um período do dia em que não tivesse três crianças pequenas sob minha completa responsabilidade. Também optamos por colocar as duas, apesar da tão pouca idade de Isabel, pelo fato de sabermos que um ano e seis meses de diferença entre elas as fazia quase que inseparáveis, e por isso, achamos que seria saudável para ambas iniciarem essa etapa juntas. A decisão foi revogada cerca de três meses depois após constatarmos a baixa imunidade delas resultando em constantes gripes, viroses e outras doenças infantis. Oramos e chegamos então à conclusão de que aquele não era o momento para a introdução dessa nova atividade.

Mas apesar do pouco tempo de duração dessa mudança na rotina, não pude deixar de experimentar aquela avalanche de sentimentos comuns a muitas mães quando seus filhos vão à escola pela primeira vez. Entre uma lágrima e outra minha alegria se misturava a um aperto doído no peito, pois sem que houvesse qualquer aviso, qualquer anúncio, aquelas sensações assinalavam na verdade um rito de passagem a me estampar no rosto a implacabilidade do tempo. Naquele instante, embora não intencionasse elucubrar a respeito, via nitidamente como essa nova fase apontava para um ponto importante: o relacionamento pais e filhos inevitavelmente sofre mutações, que apesar de gradativas podem ser observadas num piscar de olhos. Isso se dá por conta de basicamente dois fatores, o amadurecimento dos pais e o desenvolvimento natural dos filhos, evidenciando assim características da personalidade de cada um, tanto dos filhos como dos pais. O resultado desse fenômeno é no mínimo inquietante, pois a formação de novos indivíduos dotados de estilo próprio, opinião própria, interesses próprios é vivenciada por anos a fio majoritariamente no âmbito familiar. As implicações disso vão desde a emoção de poder perceber o crescimento desenfreado desses novos seres humanos a possíveis dificuldades de relacionamento, afinal são horas, dias, meses, anos de convivência.

No livro “Pastoreando o Coração da Criança”, o pastor Tedd Tripp traça um gráfico mostrando a transformação no caráter dessa relação, usando para mensurá-la os conceitos de “autoridade” e “influência”. Ele mostra que na medida em que os filhos vão crescendo a autoridade vai ganhando um novo formato até desembocar na influência que os pais virão a exercer sobre eles, como conseqüência de uma educação saudável.

Pensando sobre isso, muitos fatores me chamam a atenção nesse rito de passagem a que nossos filhos são submetidos. O primeiro deles é a consciência de que haverá outras pessoas envolvidas nesse processo de educação. Isso necessariamente não representa algo negativo, mas jamais pode ser ignorado, pois na escola serão inseridos novos valores, haverá interação entre adultos e crianças advindos de diversas realidades, e por vezes, nossos filhos terão acesso a idéias, linhas de pensamento, que em muitas ocasiões entrarão em conflito com aquilo que cremos e ensinamos.

No dia em que vi Sarah e Isabel de uniforme pela primeira vez senti-me orgulhosa ao vê-las um pouco mais crescidas, cheias de entusiasmo e ávidas por novas descobertas. Conseguia enxergar o quanto estavam mais altas, os cabelos mais compridos e o ar de bebê já era quase que imperceptível. E lá estavam elas me apresentando um quadro de extrema discrepância: ao mesmo tempo que já não as via mais como bebês ainda estavam muito distantes da maturidade.

Quando somos desafiados pelas Escrituras a ensinar a criança no caminho em que deve andar, ou quando elas nos incitam a permear cada acontecimento do dia com esses ensinamentos é que percebemos que nunca é cedo demais para a abertura desse processo.

Não há como interromper as fases da vida de nossos filhos e não podemos perder tempo ou nos isentar da responsabilidade em mostrar-lhes a verdade sobre quem são, de onde vieram, quem os fez e como é possível estar e viver no mundo sem pertencer a ele de fato. Mas para que esses conceitos sejam assimilados devem ser ensinados não só através de palavras, mas principalmente através de uma vida que serve de modelo. Se a autoridade que exercemos sobre nossos filhos for permeada pela incoerência será muito mais difícil influenciá-los no futuro, e como resultado estaremos transferindo essa tarefa a qualquer pessoa, ou instituição, ou crença que fale mais alto ao coração deles. O que estamos fazendo pra evitar isso?

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Nossos filhos, instrumentos de Deus

Já há algumas semanas venho desempenhando uma nova modalidade em minha trajetória como mãe, esposa, dona de casa, e porque não agora “mãetorista”, como diz uma amiga. Ainda estou dando meus primeiros passos, ou melhor, correndo meus primeiros kilômetros nessa nova função que adquiri e que está se tornando uma verdadeira ferramenta de trabalho e tem em muito facilitado o cumprimento de minhas tarefas do dia a dia. Mas apesar do pouco tempo de trânsito, principalmente guiando numa cidade como São Paulo, já posso perceber o quanto pequenas coisas que acontecem nesse contexto, como um carro que nos fecha pela direita, ou alguém que não respeita a sinalização, podem em questão de segundos nos fazer pecar. Ainda mais para alguém impaciente como eu em que a irritabilidade é quase que inevitável.

Quando voltava com minhas princesas pra casa após uma reunião de crianças em nossa igreja fui surpreendida com um carro que atravessou em minha frente ignorando completamente o fato de que a preferência de passagem era minha, uma situação que me deixou um pouco nervosa, dada minha inexperiência em dirigir. Imediatamente proferi uma palavra não muito educada referindo-me ao motorista inconseqüente, nada muito grave, mas simplesmente algo que já havia ensinado às minhas filhas que não se deveria dizer. E então me deparei com a seguinte frase: “Mamãe, a gente não pode falar assim, isso não agrada a Deus”. Dois sentimentos invadiram meu coração após atentar para o que havia acabado de escutar, o primeiro deles foi imediato, e que me fez corar de vergonha ao ser repreendida por minha filha de 4 anos que naquele momento era uma porta-voz de Deus em minha vida. Senti-me como se estivesse ouvindo o apóstolo Paulo dizer aos efésios: “Não saia de vossa boca nenhuma palavra torpe...” (Ef 4.9), ou o próprio Jesus ao dizer que aquele que chama seu irmão de tolo, em seu íntimo matou seu irmão. O fato é que naquele instante fui tomada por uma completa sensação de derrota, pois sucumbi à tentação de conter a ira. Resignada, minha atitude então foi dizer: “Você tem razão filha, isso realmente não agrada a Deus. Me desculpe”.

Mas antes de me deixar abater pela consciência de que havia cometido uma falha, outro sentimento tão importante quanto o arrependimento me chamou a atenção. Deus usou aquele fato corriqueiro para me fazer notar que apesar das minhas limitações, de minhas deficiências, ele tem me usado para ser sua agente na vida de minhas filhas. Embora ainda tão pequenas elas já têm capacidade para compreender, dentro de sua maturidade intelectual, que bater no irmão é pecado, que usar qualquer palavra que venha a menosprezar alguém é errado, que falar mentira desagrada a Deus, conceitos simples mas fundamentais para que a criança a medida em que se desenvolve física, emocional e intelectualmente vá também exercitando seu crescimento espiritual, ou seja, vá aprendendo sobre si mesma, sobre suas inclinações e sobre quem vem a ser esse Deus que a fez. Isso nos faz pensar sobre como os valores de Deus são elevados, seus preceitos são retos, santos, e acima de tudo invariáveis. E embora pareçam inatingíveis, quanto mais cedo forem apresentados aos nossos filhos mais cedo serão assimilados e obedecidos.

Aquela sensação frustrante que senti num primeiro momento diante desse acontecido deu lugar então a um segundo sentimento, algo que fez meu coração pular de alegria. Vitória foi a palavra que me veio a mente ao me dar conta de que minha filha, em sua primeira infância já dava mostras, ainda que infimamente, de conhecer sobre esse Deus que requer de nós não menos que a perfeição. Estas ocasiões tão especiais é que nos fazem perceber que o cansaço físico, o desgaste emocional, as horas de choro ouvidas diariamente, as petições intermináveis, de repente se dissipam na mente e abrem espaço para notarmos que vale a pena todo o esforço empreendido na busca pela religação dos nossos filhos com seu Criador.
"Eu, de boa vontade, me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol da vossa alma…" (2 Coríntios 12.15)

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Rompendo o cordão umbilical

O cordão umbilical é uma espécie de órgão que vai se formando conforme o crescimento do bebê no interior do útero. Ele promove uma ligação inseparável com a mãe, como se ela e seu filho fossem um único ser. Por meio do cordão umbilical o bebê é alimentado e nutrido até o momento em que estará pronto para sair do ventre materno e então ser definitivamente separado de sua progenitora com o rompimento radical desse elo de ligação.

Embora esse rompimento aconteça imediatamente após o nascimento do bebê, por vezes, nós mães, temos dificuldades em assimilar esse fato. Achamos que nossos filhos continuam presos a nós como se fossem um órgão a mais e nossas atitudes serão em muitas ocasiões guiadas por esse sentimento.

Sem a menor sombra de dúvida, nossos bebês necessitam de todo carinho, de todos os abraços, beijos e afagos que possamos oferecer. Essas são ferramentas aliadas nossas, as quais nos permitem desenvolver a auto-estima de nossos filhos, mostrar-lhes que também podem ser afáveis e gentis, porém não podemos nunca usá-las para justificar, ainda que inconscientemente, nossa insegurança em aceitar que o cordão já foi rompido.

Nossos filhos não são parte de nós, são pessoas, indivíduos que possuem genoma único, capazes de raciocinar por si próprios, de reagir de modo ímpar às mais diversas situações e devem ser estimulados a desenvolver seu caráter através daquilo que apreendem do meio em que vivem. Se a todo instante tentarmos transpor as barreiras que são colocadas a frente de nossos filhos, como aprenderão a rompê-las?

A partir do momento em que nasce todo ser humano passa por alguma dificuldade, seja o sofrimento pelo parto, seja a mudança de ambiente, seja a sensação de frio, todas essas novas circunstâncias são de extrema importância para inserir o bebê no contexto em que irá viver. Esse pensamento é válido para todas as etapas da vida de nosso filho. Enquanto o socorremos apressadamente quando acordam no berço, enquanto evitamos que sintam completamente o vento em seu rosto ou deixamos de negar-lhes algo para não chorarem ou se entristecerem mostramos que nós ainda não rompemos o nosso cordão umbilical. Querendo agradá-los fazemos aquilo que eles poderiam e até deveriam fazer, e agimos assim para que não sofram ou se frustrem. Mas onde está escrito que evitar as frustrações na infância é benéfico para o futuro? Não podemos nos esquecer que as dificuldades são inevitáveis e se pouparmos nossos filhos de sofrer agora enquanto podem ser consolados e disciplinados em amor, como reagirão ao receberem um “não” na vida adulta? Pedirão demissão? Desfarão o casamento? Desprezarão um amigo?

Vejo duas formas erradas de procedimento que revelam o não rompimento do cordão umbilical materno: uma delas é essa que me referi acima, em que a mãe resolve todos os problemas de seu filho, seja evitando que ele suba numa cadeira (afinal ele pode cair), evitando que brinque na terra para não se sujar, levantando-o do chão rapidamente após uma queda, etc, isto é, impedindo a criança de ganhar confiança em si mesma, de vencer seus medos e desenvolver sua capacidade criativa para resolver problemas.

Outra forma seria evitar a disciplina, como se a criança não tivesse capacidade de compreender limites e então vai formando seu caráter desconhecendo o padrão de certo e errado. O desejo de evitar o sofrimento de nossos filhos os torna apáticos diante da vida, inertes, desconectados do mundo ao seu redor.

No Salmo 127 vemos que os filhos são comparados a flechas na mão do guerreiro. Pensando a respeito dessa comparação podemos perceber que as flechas, assim como os filhos, não permanecerão para sempre no interior da aljava, senão perderiam completamente sua utilidade. Mas serão usadas em momento oportuno, e não serão colocadas no alvo com as próprias mãos do guerreiro, serão lançadas para que sigam seu caminho. A habilidade do guerreiro está em lançar as flechas mas serão elas que atingirão o alvo.

Romper o cordão umbilical é um exercício que toda mãe deve fazer, repensar o modo como enxerga seu filho, respeitando suas peculiaridades, ajudando a controlar seu temperamento, permitindo que encontre barreiras e as supere. Nossos filhos não serão bebês para sempre, serão homens e mulheres atuando na sociedade. Como tomarão suas próprias decisões se sempre houver quem as tome por eles? Podemos e devemos auxiliar nossos filhos a superar cada etapa de suas vidas mas não podemos permitir que eles sejam passivos nesse processo.