quarta-feira, março 28, 2007

Ritos de Passagem

No início do ano passado, eu e meu marido decidimos que era hora de Sarah (na época com 3 anos e 4 meses) e Isabel (1 ano e 10 meses) irem para a escola. Embora ainda de certa forma receosos por nossa resolução, tínhamos a sensação de que aquele seria um bom momento para a abertura dessa nova fase da vida delas, afinal estávamos ainda com um bebê de apenas dois meses em casa, e eu particularmente, sentia a necessidade de um período do dia em que não tivesse três crianças pequenas sob minha completa responsabilidade. Também optamos por colocar as duas, apesar da tão pouca idade de Isabel, pelo fato de sabermos que um ano e seis meses de diferença entre elas as fazia quase que inseparáveis, e por isso, achamos que seria saudável para ambas iniciarem essa etapa juntas. A decisão foi revogada cerca de três meses depois após constatarmos a baixa imunidade delas resultando em constantes gripes, viroses e outras doenças infantis. Oramos e chegamos então à conclusão de que aquele não era o momento para a introdução dessa nova atividade.

Mas apesar do pouco tempo de duração dessa mudança na rotina, não pude deixar de experimentar aquela avalanche de sentimentos comuns a muitas mães quando seus filhos vão à escola pela primeira vez. Entre uma lágrima e outra minha alegria se misturava a um aperto doído no peito, pois sem que houvesse qualquer aviso, qualquer anúncio, aquelas sensações assinalavam na verdade um rito de passagem a me estampar no rosto a implacabilidade do tempo. Naquele instante, embora não intencionasse elucubrar a respeito, via nitidamente como essa nova fase apontava para um ponto importante: o relacionamento pais e filhos inevitavelmente sofre mutações, que apesar de gradativas podem ser observadas num piscar de olhos. Isso se dá por conta de basicamente dois fatores, o amadurecimento dos pais e o desenvolvimento natural dos filhos, evidenciando assim características da personalidade de cada um, tanto dos filhos como dos pais. O resultado desse fenômeno é no mínimo inquietante, pois a formação de novos indivíduos dotados de estilo próprio, opinião própria, interesses próprios é vivenciada por anos a fio majoritariamente no âmbito familiar. As implicações disso vão desde a emoção de poder perceber o crescimento desenfreado desses novos seres humanos a possíveis dificuldades de relacionamento, afinal são horas, dias, meses, anos de convivência.

No livro “Pastoreando o Coração da Criança”, o pastor Tedd Tripp traça um gráfico mostrando a transformação no caráter dessa relação, usando para mensurá-la os conceitos de “autoridade” e “influência”. Ele mostra que na medida em que os filhos vão crescendo a autoridade vai ganhando um novo formato até desembocar na influência que os pais virão a exercer sobre eles, como conseqüência de uma educação saudável.

Pensando sobre isso, muitos fatores me chamam a atenção nesse rito de passagem a que nossos filhos são submetidos. O primeiro deles é a consciência de que haverá outras pessoas envolvidas nesse processo de educação. Isso necessariamente não representa algo negativo, mas jamais pode ser ignorado, pois na escola serão inseridos novos valores, haverá interação entre adultos e crianças advindos de diversas realidades, e por vezes, nossos filhos terão acesso a idéias, linhas de pensamento, que em muitas ocasiões entrarão em conflito com aquilo que cremos e ensinamos.

No dia em que vi Sarah e Isabel de uniforme pela primeira vez senti-me orgulhosa ao vê-las um pouco mais crescidas, cheias de entusiasmo e ávidas por novas descobertas. Conseguia enxergar o quanto estavam mais altas, os cabelos mais compridos e o ar de bebê já era quase que imperceptível. E lá estavam elas me apresentando um quadro de extrema discrepância: ao mesmo tempo que já não as via mais como bebês ainda estavam muito distantes da maturidade.

Quando somos desafiados pelas Escrituras a ensinar a criança no caminho em que deve andar, ou quando elas nos incitam a permear cada acontecimento do dia com esses ensinamentos é que percebemos que nunca é cedo demais para a abertura desse processo.

Não há como interromper as fases da vida de nossos filhos e não podemos perder tempo ou nos isentar da responsabilidade em mostrar-lhes a verdade sobre quem são, de onde vieram, quem os fez e como é possível estar e viver no mundo sem pertencer a ele de fato. Mas para que esses conceitos sejam assimilados devem ser ensinados não só através de palavras, mas principalmente através de uma vida que serve de modelo. Se a autoridade que exercemos sobre nossos filhos for permeada pela incoerência será muito mais difícil influenciá-los no futuro, e como resultado estaremos transferindo essa tarefa a qualquer pessoa, ou instituição, ou crença que fale mais alto ao coração deles. O que estamos fazendo pra evitar isso?

Um comentário:

betty disse...

Querida Suenia:
Que bom ver você postando. Sempre reflexões ponderadas e valiosas. Não tive oportunidade de ler o livro de Ted Tripp mas me chamou a atenção a referência à autoridade e influência. O alvo final, é claro, é estimular a liberdade de escolha e a criatividade nos filhos dentro de parâmetros necessários e discerníveis. Até um dia chegarem a ser independentes.

Desde pequenas, já existem áreas em que crianças podem ser estimuladas a escolher. Enquanto isso, os pais têm que procurar impor apenas os limites necessários para que elas não se machuquem nem causem danos a outros (nem levem Papai e Mamãe `a falência). Isto, entretanto, dá um bocado de trabalho. Muitas vezes, é bem mais fácil resolver—"Você vai usar o vestido vermelho e a sandália branca e pronto. Corra, menina, se não vamos chegar atrasadas na igreja!"

Aos poucos a gente vai aprendendo a encorajar a escolha ao mesmo tempo em que delineamos as alternativas. "Eu gostaria de deixar você comer sorvete agora mas tenho medo que vá manchar a sua roupa antes de chegar na igreja. Vamos parar na padaria e você pode ver se tem algum tipo que não mancha."

Me lembro de quando nossos adolescentes começaram a ir para os shoppings com os amigos. No começo, exigíamos saber qual filme eles iriam ver, antes da saída. Depois, dissemos que podiam escolher eles mesmos, dizendo que confiávamos que eles iriam seguir as diretrizes que haviam aprendido (de vez em quando, tiveram que admitir que fizeram uma má escolha, que poderiam ter se preparado melhor antes; que foi chato sair no meio e gastar seu dinheiro a toa). Assim fizemos a transição da autoridade para independência, através da influência. A mesma coisa com as roupas e as músicas, com muitas conversas exigindo decência e ao mesmo tempo tolerando gostos...

Aos poucos entendemos que o alvo era criarmos seres pensantes e responsáveis—cujo referencial precisava ser o que Deus revela e manda, acima até do que seus pais acham ou seus colegas exigem. Jovens e adultos que tomam decisões, não mais com medo da ira ou irritação dos seus pais mas por temor a Deus. Tivemos que aprender quando era melhor fechar a boca e deixá-los quebrar a cabeça, sofrer e lidar com conseqüências, enfrentar dificuldades, pedir desculpas...

Foram lutas, foram vitórias... E o essencial tem sido o ensino da Palavra desde o início pois vem dela os conceitos que o Espírito Santo aplica ao coração dos nossos filhos, fazendo o milagre de tornar obediência forçada em submissão voluntária—por um tempo a nós, mas, eventualmente, a Deus.