quarta-feira, novembro 08, 2006

Meu maior defeito

Quem já experimentou a bênção de ter filhos é capaz de compreender o quão árdua é a tarefa de educar. Costumo muitas vezes contrariar o provérbio que diz: “ser mãe é padecer no paraíso”. Acabo citando-o da seguinte forma: ser mãe é padecer - ponto final. Não que essa idéia represente uma visão negativa da criação de filhos, mas por trás das muitas bênçãos e alegrias que uma criança pode proporcionar à vida de um casal, as responsabilidades acabam em certas ocasiões sobrepujando os momentos prazerosos. Isso porque infelizmente nossos filhos nascem com apenas uma inclinação, aquela que pende para o pecado, aquela herança que nos separa de Deus, ou mais ainda, não nos permite querê-lo.

Embora todo ser humano carregue em sua essência alguns atributos divinos, transferidos pelo próprio Deus no momento em que criou o homem à sua imagem e semelhança – como por exemplo, bondade, amor, justiça – o pecado não permite que eles se sobressaiam. Tudo aquilo que é bom em nós, não por nós mesmos, mas pela vontade divina, aparece de forma distorcida, camuflada, pois o pecado é como jogar sujeira dentro de uma fonte de água potável, ou seja, após esse acontecimento ela perde por completo sua pureza. Ou, como nos apresenta o relato bíblico, o pecado é como o fermento, o qual uma pitada é capaz de reagir com toda a massa (1Co 5.6).

Ao nascermos, há apenas um querer dentro de nós, apenas uma vontade, aquela que nos leva a desejar o caminho do pecado. Agora já se pode imaginar o quanto é difícil conviver com um ser que desconhece completamente o bem. Ainda que essa constatação pareça exagerada, afinal quando olhamos para um bebê o vemos cheio de encantos, de movimentos suaves, sorriso doce, e assim temos dificuldade em aceitar que aquela criança meiga seja capaz de manifestar atitudes más, me sinto desafiada a refletir sobre alguns aspectos:
- Já com poucos meses de vida, a criança é capaz de relutar contra uma imposição de seus pais que a informam que aquela é a hora de dormir. É comum notarmos a resistência da criança manifestada através de movimentos rápidos do corpo, choro agressivo e desejo de se libertar.
- A partir do nono mês aproximadamente, a criança já é capaz de reproduzir alguns sons que lhe são ensinados, pode aprender a bater palmas, há uma melhora significativa em sua coordenação motora, mas também se pode constatar com maior nitidez sua obstinação. Enquanto ela é ensinada que não deve tocar em algo, ou mexer em determinado objeto, sua primeira reação é contrariar a ordem e continuar agindo como vinha fazendo anteriormente. Não sendo corrigida, não será capaz de discernir o que deve ou não fazer.
- Ao desenrolar das fases, embora a perspectiva de certo e errado vá aumentando, o desafio à autoridade também se torna maior.

Tudo isso para dizer o quanto é fácil perder a calma, se exasperar. Como é difícil não perder o controle depois de seu filho ter desobedecido quase todas as suas ordens, mesmo já tendo sido disciplinado. Existem dias em que a disciplina dura enquanto os filhos estiverem acordados. Sendo agente de Deus na vida de minhas filhas muitas vezes me pego esbravejando, demonstrando irritabilidade e rudeza. E imediatamente após minha atitude incorreta me vem à mente o texto: “o amor não se exaspera”. (1Co 13.5) Como é difícil cumprir esse desafio prescrito pelas Escrituras após um dia inteiro de prática da educação propriamente dita, convivendo com pessoas que em todo tempo resistem a ordens, detestam a obediência, estão cegos diante do caminho da retidão.

A cada dia me sinto mais e mais desafiada a enfrentar e superar meus delitos, sei que se essa é minha área de maior dificuldade, Deus colocará a minha frente situações em que terei de subjugá-la. E aí consigo enxergar o quão rico pode ser esse relacionamento já que é usado para moldar caráter, não só o dos filhos, mas também o dos pais. É a incomparável sabedoria divina mais uma vez refletida no ambiente familiar. Quão inescrutáveis são os caminhos do Senhor e insondáveis os seus juízos (Rm 11.33), a Ele pois a glória eternamente, Amém.