quarta-feira, setembro 13, 2006

Pais "apaixonados", Filhos ajustados

Um dos programas de tv que tem obtido grande atenção do público que busca auxílio em se tratando de educação de filhos é o SOS Babá. Já havia assistido vários episódios pelo canal fechado Discovery Home and Health e tenho a impressão de que dada a projeção e audiência o programa ganhou uma versão nacional, que é transmitida pelo SBT aos domingos com o título de Super Nanny.

O enfoque é mostrar problemas relacionados à indisciplina de crianças as quais os pais já perderam completamente o controle. É comum em cada episódio observar crianças de 2 ou 3 anos de idade proferindo palavras indecentes aos pais, agredindo fisicamente seus pais e irmãos, algo que aparentemente pode ser comum em qualquer família mas que ao mesmo tempo não pode e nem deve se tornar uma prática, tal como nos casos em que a babá é chamada para intervir. Vou fugir um pouco do objetivo desse texto, pois na verdade meu intuito era fazer uma crítica ao programa (ficará para uma outra ocasião), mas pretendo aproveitar aquilo que vejo de positivo no Super Nanny para exemplificar uma das ferramentas que creio seja a mais importante para o bom comportamento dos filhos e que pretendo tratar a seguir tendo como respaldo, claro, a prescrição bíblica.

Uma das coisas que mais me chama a atenção no programa é a percepção da babá quanto aos pontos fracos da família. Uma das primeiras falhas apontadas diz respeito à falta de autoridade dos pais em relação aos filhos, porém após algum tempo de convivência da babá com os membros da casa percebe-se que o problema muitas vezes vai mais além. Na maior parte dos casos em que os filhos são desobedientes, incontroláveis e agressivos o diagnóstico é tensão no relacionamento entre o marido e a esposa. O que mais me impressiona nessa situação é a percepção das crianças no que se refere aos conflitos vividos por seus pais. Quando os pais vivem em pé de guerra, discutem, enfrentam-se, divergem quanto à disciplina sem escolher o momento adequado para as críticas, fica quase que impossível requerer o bom comportamento dos filhos. Mas esses não são os piores casos. Muitos casais na tentativa de poupar seus filhos optam pelo silêncio, crendo que com isso não deixarão transparecer seus impasses e evitarão que os filhos os absorvam. Ao subestimarem a capacidade de compreensão das crianças acabam por deixá-las inseguras, porque elas não conseguem entender a razão de seus pais já não mais se comunicarem.

Não há nada que cause mais insegurança nos filhos do que notar que seus pais não se amam, ou não se tratam com amor. E não é preciso discutir na frente deles para que o problema seja desvendado. A falta de harmonia do casal paira no ar.

O sentimento que é gerado no coração desses pequenos que enfrentam a desunião de seus pais muitas vezes perpassa pela culpa, ira, insegurança, insatisfação, baixa auto-estima, medo, tristeza. Muitos casais que estão lutando para manter seus filhos sob controle ignoram o fato de serem eles os reais necessitados de tratamento. As Escrituras trazem exemplos clássicos que apontam os desajustes entre pais e filhos como os casos da família de Abraão e também de Jacó. No primeiro deles, na tentativa de dar uma mão aos planos de Deus, Abraão e Sara se precipitam e um filho é gerado no seio da família através de uma das servas do casal. As conseqüências desse ato têm repercussão até nossos dias, já que em Ismael, fruto dessa empreitada, teve início o conflito entre os israelitas e seus atuais inimigos (ver relato em Gn 16; 21). No caso de Jacó, por amar mais sua esposa Raquel do que as outras mulheres com as quais teve filhos, havia distinção entre o filho dela, José, e os demais. José tinha certeza do amor de seus pais e seu comportamento alimentava esse amor ao mesmo tempo em que ampliava a raiva de seus irmãos, pois sentiam-se preteridos. As conseqüências também foram desastrosas, embora Deus em sua infinita misericórdia as tenha tornado em bem no final de tudo. Mas os meios utilizados no processo foram permeados por ódio, mágoa, frustração (Gn 37; 45).

Quando os filhos enxergam com nitidez que seus pais se amam, eles têm em sua mente um conceito sólido de família, observam o mundo sob essa perspectiva. Até mesmo quando vêem um desenho com duas figuras, uma foto com um homem e uma mulher, um casal de animais, sempre os identificam como “o papai e a mamãe”. Eles entendem que um não fica sem o outro, eles compreendem na prática, no cotidiano que os dois na verdade são um.

É comum entre os casais que estão com dificuldade em manter a disciplina de seus filhos detectar problemas de comportamento na criança sem levar em conta que esta situação pode ter origem no relacionamento conjugal. Preocuparmo-nos em encontrar os defeitos de nossos filhos é muito mais fácil do que realizar um auto-exame e colocar na balança nossas próprias diferenças como casal. Se as arestas não forem aparadas entre marido e esposa é possível que se combata o efeito e não a causa do problema. Que Deus nos dê sabedoria.

3 comentários:

ligian disse...

Su,
Tenho certeza de que essa, sem dúvida, é uma das causas dos desajustes nos filhos, mas também penso em algumas outras coisas como a ausência da mãe que trabalha o dia todo e estuda à noite, deixando a criança com a babá ou a avó e os pais que tratam seus filhos como irmãos mais novos. Na verdade, uma falta da perspectiva bíblica sobre o assunto "criação de filhos" causa o maior desajuste de todos, não é mesmo?!! Eu acho esse programa que você citou horrível, não concordo com quase nada dos métodos utilizados pela babá. Aproveito para indicar um livro: Pastoreando o Coração da Criança de Tedd Tripp, que vc já leu e deve saber como é bom!!
Beijo!

Suenia Barbosa de Almeida disse...

Bom Li, sem dúvida existem inúmeros fatores que podem causar o mal comportamento dos filhos mas vejo o relacionamento deficiente entre marido e esposa como o pior deles, pois é muito mais difícil de ser detectado, ou melhor, admitido, não é??
Quanto ao livro, realmente leitura imprescidível e será o tema do próximo post.
Bjão

Vinícius Cássio disse...

oi Suenia, boa tarde...
Há MUITO tempo eu estava devendo uma visita, com calma, para ler seus textos ...
Me impressiono muito!
...
Quanto ao tema, concordo com os argumentos. Realmente, o comportamento dos pais determina o dos filhos... Engraçado é que eu reparo que o dos irmãos mais velhos tbm (rsrs), e isso é triste. Muitas das coisas que critico de minha irmã são cópias sem nada de diferente do que eu possa vir a fazer de errado...
É triste em um primeiro momento, mas é um incentivo a mais para melhorarmos, seja como pais, ou seja como irmãos! Ter a consciência disso é o 1º degrau! ;)
Parabéns pelo blog! O meu espera uma visita sua também!
Vi.