quarta-feira, julho 14, 2010

Na contramão


O deus desse século chama-se “Prazer”. Vivemos numa sociedade hedonista, que não suporta nenhum tipo de dor. Não são toleradas diferenças de pensamento, jeito de ser, idiossincrasias, peculiaridades, frustrações, decepções. A nova lei do Divórcio Imediato não nos deixa mentir. Agora não há mais a necessidade de se repensar decisões, rever os prós e contras, analisar. Basta dizer que não há mais interesse no relacionamento e pronto. Tudo se resolve no ato, com uma simples assinatura. E não estamos falando de casos de traição e abandono não. Hoje a quebra de relacionamento se dá muito antes da intimidade chegar. É assim. Cada vez mais cresce o número de pessoas que defende a sua suposta felicidade a qualquer custo. Quando a relação não tem mais nada a lhe oferecer então a solução é ir para a próxima, seguir em frente, como se fosse possível passar uma borracha sobre tudo o que ficou para trás. Essa marca da sociedade moderna deixa bem claro que o que vale mesmo é o ego, se este estiver bem alimentado, satisfeito, que se dane o resto. Fico me perguntando se vai sobrar alguma história pra se contar...

Por esse ponto de vista, a lei que combate o castigo físico pelos pais vem bem a calhar. Enfim, ninguém pode ser contrariado. Uma criança de dois anos não pode receber nenhuma palmadinha na região glútea, mesmo que depois de ser advertida verbalmente ela insista em colocar seu dedo na tomada. Parece que é melhor correr o risco do choque do que mostrar a ela, numa linguagem inteligível para qualquer ser humano, que aquele comando de não por o dedo na tomada deve ser observado. É interessante notar o quanto essas duas leis se encaixam, se complementam. Já que uma criança deve ser poupada de sofrimentos, porque não eternizar essa sensação prazerosa abrindo a oportunidade de se trocar de cônjuge quando se está insatisfeito? Afinal de contas, a maneira de evitar que uma criança mexa aonde não deve é dando a ela outra coisa para fazer.

A mídia procurou mostrar que é quase um consenso a adesão à lei. Pessoas que são a favor do castigo físico (veja bem: não estamos falando de agressão ou abuso, e sim de uma advertência física que indique a existência de regras que precisam ser obedecidas) não foram ouvidas. Muito menos foram ouvidos jovens que receberam algum tipo de castigo físico na infância por seus pais, e que hoje tem uma vida saudável, tornaram-se pessoas respeitosas e responsáveis e que até agradecem aos pais pelas palmadas que receberam. As crianças entrevistadas geralmente são aquelas que aparecem cheias de hematomas, tendo sido espancadas depois de verbalmente agredidas. Isso sim é violência, isso sim é mal-trato e abuso. Acontece que é cada vez mais comum a idéia de que pais e filhos estão em pé de igualdade. Não existe mais autoridade associada à figura dos pais. Há hoje a figura dos pais que usando o argumento da amizade são reféns dos próprios filhos. Ora, se um pai ou uma mãe podem simplesmente ir ao cartório e acabar imediatamente com seu casamento, porque já não estão mais satisfeitos com aquela relação, os filhos aprendem com isso que também podem fazer o que quiserem com a própria vida.

Na teoria, muitos vão defender que os filhos precisam ter limites, precisam ser educados, que deve haver respeito entre as partes. Mas como se corrige um filho que grita com o próprio pai? Como se disciplina uma criança que mentiu ou roubou? Será que uma conversa é suficiente? A quem estamos tentando enganar? Por conta das exceções, muitos colocam seus filhos numa roleta russa esperando que a vida lhes mostre o que é certo ou errado. Os nossos políticos já foram crianças. Os Nardoni, a Suzane von Richthofen e o goleiro Bruno também. O que há de errado com essas pessoas? Elas simplesmente eliminaram aquilo que era incômodo. Simples assim. Simples como assinar um papel e extirpar um relacionamento que a princípio começou em nome do amor. Simples como trocar a necessidade da disciplina por um brinquedo que seja mais interessante.

E nós, cristãos, referendados biblicamente, taxados moralistas, nos condenamos por mostrar a nossos filhos que a vida não se resume à satisfação do nosso bel-prazer. Talvez sejamos presos por mostrar a nossos filhos que as pessoas têm valor, que pai e mãe são muito mais do que seres humanos provedores. Talvez não nos tolerem por defendermos a tolerância com aqueles que nos rodeiam. Talvez nos condenem por adotar, em casos de desobediência deliberada, a famosa palmada para que nossos filhos entendam que seus pais os amam, e por isso os advertem. Nossos filhos não são brinquedos, são herança, a herança que nós vamos deixar para o mundo. Se nenhum ser humano deseja ser descartado, porque tantas pessoas lutam por isso? Eu continuo na contramão.

4 comentários:

Helen disse...

Suênia,
Tive a oportunidade de ler seu artigo " Na Contramão" e gostei muito.Penso igual a você no tocante de que o pai que dá umas palmadas no filho quando este erra, está demonstrando que o ama, se preocupa com ele e quer que ele seja uma pessoa de bem.
Não sei se você viu uma reportagem com um menino de 2 anos que é um fumante inveterado. Os pais, simplesmente por acharem que ele seja possuído de um espírito( só pode ser de porco!)não podem contrariá-lo. Neste caso, preferem que continue praticando um ato que lhe fará mal mais tarde.
Os filhos, quando não são corrigidos, com certeza, mais tarde se arruinarão e também aos familiares.
Eu dei palmadas nos meus 3 filhos e hoje eles me agradecem. Doeu neles... doeu mais em mim.... mas valeu a pena! Hoje,são 3 pessoas de valor!
Beijo e parabéns!
Helen

holly disse...

Fantástico, a falta de limites tem sido a causa de nossa sociedade caminhar para este caos.

Que Deus te abençoe minha irmã!

Pr. Adeilton S. de Souza disse...

Olá Suênia,
li o seu artigo, e achei muito bom! De fato esse mundo está na contra mão. Deus abeçoe sua vida.
Sugestão: wwwteoreformada.blogspot.com

Talita disse...

Eu levei muitas varadas do meu pai quando criança e o agradeço por isso, porque sei que ele o fez com amor! Hoje tenho duas filhas e procuro seguir o seu exemplo ao educá-las. Li o livro "Pastoreando o Coração da Criança" (Tedd Tripp) e indico para todos os casais cristãos que conheço. No meu blog (www.maternidadeproativa.blogspot.com) você encontra o resumo dele! Bjs.