sexta-feira, maio 13, 2011

Dia desses...

Acordei, como em todos os dias úteis da semana, às 5 da manhã. Após 15 minutos gastos colocando a roupa já separada na noite anterior, escovando os dentes e penteando os cabelos, corro em direção às companheiras inseparáveis e determinantes do humor de qualquer criança durante o período escolar: as lancheiras. Abro as três, verifico as toalhas aparadoras, enxáguo os recipientes para o lanche e então descubro que sou uma mulher criativa ao me dar conta de que preparo três tipos de lanches personalizados cinco vezes por semana. Também noto com isso que da mesma genitora podem sair os mais variados tipos de gente. Cômico. Até aí já se foram 30 minutos. Sigo em direção à porta do quarto onde três criaturinhas encantadoras dormem como anjos sem qualquer cuidado ou consternação. Chacoalho uma a uma, levo-as para a toalete matinal, ajudo a vestirem seus uniformes, colocarem as meias, amarrarem os sapatos, preparo três xícaras de leite, três fatias de pão com manteiga, penteio rapidamente os longos cabelos com cachos embolados que me rendem algumas reclamações, irritações e gritinhos de dor em meio ao dia ainda escuro. Quase tudo pronto. Agora, cuido para que os itens perecíveis retornem ao refrigerador, que o achocolatado seja tampado, que a pia não fique em tanta desordem, e saio mais uma vez rapidamente em direção ao carro que irá receber quatro mochilas, três lancheiras, uma bolsa e o que mais for necessário para a primeira metade do dia. São 6 horas. Certifico-me de que todas estão no carro, cintos afivelados, farol aceso, retrovisores desembaçados e a saga continua.

A ilusão de que o trajeto seja tranqüilo dentro e fora do veículo é uma esperança diária. Afinal não se deve perdê-la, mas é inútil crer que isso se torne concreto. Começo a ouvir toda sorte de reclamações como: estou sendo observada, ela não pára de cantar, sua mão está me cutucando e outras mais que minha limitada capacidade criadora jamais sonhou em manifestar. Enfim, mais uma vez fico com aquela sensação de que de fato sou dotada de algum tipo de faculdade cognitiva especial capaz de me fazer prestar atenção em todas as esferas que me envolvem, desde as conversas e questões de minhas filhas ao motorista mal educado que se prevalece de minha feminilidade ou do intenso tráfego que reduz qualquer ser humano a uma formiga. Acho que algo mudou em meu cérebro de uns anos pra cá.

Enquanto não chego ao meu destino preciso decidir como será minha manhã. Acabo de me lembrar que esse será o dia em que uma daquelas três incríveis criaturinhas será reavaliada pelo ortopedista. Diagnóstico: fratura no úmero direito. Quem foi que falou que princesa não quebra o braço? Posso garantir que sim. E pela segunda vez. Enfim é quase impossível não refletir a respeito das implicações de tal situação. Ainda mais após pareceres diferentes a cada visita ao médico além de saber que uma tala de gesso é incapaz de deter a vivacidade pueril.

A manhã vai se passando, vou matando o tempo trabalhando enquanto aguardo o reencontro cotidiano. Percebo que de fato trabalhar é na verdade matar o tempo já que a vida real está longe de ser uma mera distração envolvendo um laptop e algumas idéias elaboradas em arquivos. 12h. Hora de me preparar emocionalmente para e enxurrada de gritinhos, pulos, beijos, comentários indignados, diversas feições. A rotina é interrompida pela tal ida ao hospital. Respiro fundo, pois enquanto deixo o carro aos cuidados do manobrista, percebo que ele terá um destino bem mais confortável que o meu (sinceramente, às vezes alimento o sonho de que sou um objeto inanimado). O cenário é caótico. A impressão é de que todas as crianças da cidade resolveram embranquecer um pouco mais os cabelos de seus pais no mesmo dia. Ainda assim, ergo as mãos pro céu pela oportunidade de levar minhas crianças a um local onde algumas distrações pediátricas estarão à disposição. Diante das muitas ofertas de entretenimento na sala de espera, não tenho outra opção senão a de me sentar e esperar que todas encontrem algum tipo de diversão. Entre painéis e esculturas manipuláveis noto que o braço quebrado já sem gesso é capaz das mais incríveis manobras. Fico o tempo todo me perguntando como faço para manter três crianças (sim, é delas que estou falando) controlarem o ímpeto indomável de movimentarem-se. Após alguns instantes, o nome de uma delas é mencionado e com rapidez e aos berros chamo a todas para o consultório. Com uma paciência invejável, a médica contorna as inúmeras perguntas advindas de três ávidas cabecinhas. Me impressiono com a capacidade de argumentação e também com a audácia em questionar cada procedimento. 14h. Após as devidas providências nos encaminhamos para nossa segunda casa, a de quatro rodas, talvez tão habitada quanto a de quatro paredes. Uma hora depois estamos em casa. Almoçamos, e corro para que as tarefas escolares sejam feitas com intensa rapidez sem que o zelo seja ignorado.

Uniformes de ballet já sobre a cama desalinhada aguardam para serem vestidos. Às 17h duas já estão prontas para um momento de aprendizado e não menos relaxante do dia. Mais uma vez lanço mão da escova de cabelo, grampos, acessório de contenção dos cachos (rede) e nossa segunda casa nos aguarda. Enquanto tento aninhá-las, sou impelida, pelos inúmeros questionamentos e reivindicações, a dizer que não se deve desistir dos sonhos no primeiro obstáculo, que na vida enfrentamos dificuldades, mas devemos superá-las se quisermos alcançar nossos objetivos. Enquanto as aguardo por uma hora, me distraio jogando conversa fora tentando não me preocupar tanto assim. Na volta pra casa ainda escuto vozes de mente e coração que questionam a vida ainda que de forma inconsciente. Mais uma vez o repertório moral e ético é solicitado. Já me perguntei uma vez quantas vezes ao dia preciso acessar meu banco de dados chamado maternidade. Às 19h30 inicia-se a corrida banho-jantar enquanto estico o olhar para as novidades da vibe. Marido em casa, finalmente mudo de interlocutor. Em breve o saldo do dia nos renderá boas risadas.

Todas cheirosas e com seus pijaminhas de ursinho vão dando beijinhos antes da última oração. E aquela imagem singela de criaturinhas angelicais reaparece. Com um sorriso nos lábios e um interminável suspiro apago a luz. Olhos ao céu, digo baixinho: obrigada Senhor, por mais um dia desses...


Um comentário:

Talita disse...

Puxa, fiquei cansada só de ler!! Que idade tem suas filhas??